Eu olho para as projeções de 2026 e percebo um descompasso perigoso. CEOs esperam milagres imediatos. Times técnicos entregam código e lidam com bugs. Essa distância quebra empresas. De acordo com o relatório da Harvard Business Review assinado por Peter Aykens e equipe, apenas um em cada 50 investimentos em IA traz valor real. O resto é fumaça acumulada.

O custo da ficção

Vender o que não existe mata a confiança interna. O board quer crescimento rápido. O desenvolvedor sabe que ainda a jornada é mais longa do que a promessa. Quando essas duas visões não conversam, o orçamento desaparece. Eu já estive em reuniões onde o comercial prometia automação total enquanto eu pensava no custo de limpar os dados.

Por exemplo, aqui na T2S sempre entendemos que transparência técnica vale mais que slide bonito. O mesmo ocorre com "escopo fechado" quando já sabemos que todos os envolvidos não têm maturidade suficiente para fechar um escopo. Sequer entender. A ironia da profissão já me fez presenciar reuniões de definição de escopo, onde o cliente diverge internamente de um processo que não está nem desenhado ainda (e o projeto já indo pro vinagre por conta de custos de esforço). As dicussões com IA muitas vezes vão por este mesmo caminho.

Gestão de realidade

O papel do líder técnico mudou. Agora ele funciona como um tradutor de riscos. Você precisa quantificar a incerteza para quem toma decisões financeiras. Isso exige métricas de negócio e não apenas de performance de modelo. Eu vejo gestores se perdendo em termos técnicos sem explicar o impacto no lucro.

No desenvolvimento de soluções de logística, vi projetos pararem por falta de alinhamento sobre o sucesso. Um modelo com 90 por cento de acerto pode ser inútil se o erro causar um desastre operacional. No DataRecintos, o desafio foi exatamente esse. Precisávamos integrar dados com a Receita Federal mantendo a conformidade absoluta. Se eu tivesse ouvido apenas o otimismo do mercado sobre IA sem olhar a regra de negócio, teríamos falhado feio.

Pontes sólidas

A solução reside no roadmap iterativo. Não se promete o destino final completo de uma vez. Promete-se o próximo experimento validado. Isso mantém o CEO engajado sem colocar o time em um beco sem saída técnica. Eu prefiro entregar algo pequeno que funcione do que uma promessa gigante que vira dívida técnica.

Eu aprendi que o medo de mudar trava mais que a falta de tecnologia. O board tem medo de ficar para trás. O time tem medo de falhar publicamente. A honestidade sobre o que a IA não faz é o que salva o projeto no longo prazo. Superar o sempre foi feito assim exige coragem de admitir limitações.